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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Crítica: Vedações / Fences (2016)

"Some people build fences to keep people out, and other people build fences to keep people in."
Bono

*7/10*

Vedações, de Denzel Washington, não engana: é um filme onde as palavras e interpretações ganham um espaço muito maior do que a própria imagem. É verdade, adapta uma peça de teatro ao cinema. 

É muito mais um filme de emoções e sentimentos do que de acontecimentos ou acções, que vive, em especial dos seus actores, com destaque para o casal protagonista Washington e Viola Davis.

Vedações retrata a vida e as frustrações de uma família operária afro-americana nos anos 50. Troy Maxson (Denzel Washington) é um homem que sonhou ser uma estrela de basebol mas que, devido à sua raça, se resignou a trabalhar na recolha do lixo para sustentar a família. Os conflitos existenciais consomem-nos e ameaçam destruir tudo à sua volta.


Adaptar uma peça de teatro ao cinema não é tarefa fácil. Washington fá-lo bem como realizador e protagonista, como bom conhecedor da peça de August Wilson das suas representações teatrais - mais de 100 vezes em palco como Troy. Não é de estranhar, portanto, a familiaridade com que o actor e parte do restante elenco (que também fez os mesmos papéis no palco) tratam o texto que representam.

Muito teatral, especialmente ao início, com longos diálogos, muito vocabulário e poucos silêncios. Vedações evidencia ainda mais a sua ascendência ao passar-se quase exclusivamente no mesmo espaço ao longo do filme - a casa da família Maxson.

Passado e futuro misturam-se nas tomadas de decisão das personagens e condicionam-nas. É curioso estabelecer certos paralelismos entre as personagens que ditam o seu rumo ao longo do filme. A relação familiar e os sonhos desfeitos de pais e filhos são o centro da narrativa e é a mãe Rose, quem procura conciliar diferenças e frustrações. A frase que Bono, o amigo fiel de Troy, diz a certo momento no filme, resume bem o papel da personagem feminina: "Some people build fences to keep people out, and other people build fences to keep people in." ("Alguns constroem vedações para manter as pessoas fora, outros constroem para as manter dentro").


A pairar sobre Vedações está uma componente religiosa e mística muito poderosa. O protagonista desafia muitas vezes a morte e o irmão Gabe tem um discurso desconexo sobre a mesma ideia. Troy trata a morte como um adversário com quem se propõe a lutar sempre que for preciso e Gabe, no meio da sua doença, fala de São Pedro e dos cães do Inferno com uma veemência que deixa os que o rodeiam assombrados.

O elenco é o motor desta longa-metragem que traz consigo tanto do teatro. O Troy de Denzel Washington e a Rose de Viola Davis são personagens dotadas de uma força avassaladora, toda ela conferida pelos actores com performances estrondosas. O protagonista encarna com a naturalidade da prática um homem de sonhos perdidos, que refugia no álcool os seus desgostos, em constante conflito com os filhos, ambicioso e egoísta. Quer fazer tudo pela família, mas são mais as oportunidades de triunfo que lhes rouba. Sendo quase omnipresente, não deixa de ser uma personagem incapaz de conquistar a plateia, tanta é a amargura que carrega em si. 


Viola Davis tem, por seu lado, o melhor desempenho do filme, com a sua Rose conciliadora mas muito magoada. A actriz é contida e defende a família com as armas que tem, mas explode com todas as emoções e ressentimentos quando assim tem de ser. De destaque é ainda a boa prestação de Mykelti Williamson como Gabe, o irmão de Troy terrivelmente marcado pela guerra. Apesar de ser uma personagem secundária, Gabe é de extrema importância para conhecermos Troy e traz consigo mágoa e uma espiritualidade muito característica.

Vedações traz o teatro ao cinema, mas consegue fazê-lo cativando a plateia que, apesar de estranhar tantas palavras e menos estímulos visuais, vai embrenhar-se da história da família Maxson e segui-la com verdadeiro interesse e preocupação.

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