segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

#MeToo... but not this way

Sou mulher e, como a maioria (senão a totalidade) do sexo feminino, tenho várias razões para me juntar ao movimento #MeToo. Ainda assim, não pretendo defendê-lo nas proporções que tem tomado, onde se julgam pessoas em praça pública e a presunção de inocência a que todos têm direito é totalmente esquecida.


Todos se lembram onde o movimento começou: Harvey Weinstein. Após muitas décadas de opressão, as mulheres colocaram o medo de lado e denunciaram abusos por parte do produtor cinematográfico. Os nomes mais sonantes envolvidos são os de Rose McGowan, Ashley Judd, Jessica Barth, Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne ou Lea Seydoux.

Depois do tiro de partida, muitas mais acusações surgiram: Brett Ratner, Bill Cosby, John Lasseter, Dustin Hoffman, James Toback, Kevin Spacey... Com Spacey o caso tomou proporções especialmente marcantes. O actor foi afastado de House of Cards e substituído, a poucas semanas da estreia, por Christopher Plummer em Todo o Dinheiro do Mundo. E começa aqui a questão: onde fica a linha que separa o pessoal do profissional? Kevin Spacey é um dos melhores actores da sua geração e não são acusações de assédio que podem apagar esse facto. Alfred Hitchcock assediava a maior parte das suas actrizes e continua a ser o mestre do suspense...


No evoluir das polémicas e com o surgimento do #MeToo e do #TimesUp, Dylan Farrow lembrou-se que seria excelente altura para voltar a acusar Woody Allen de abuso sexual. O cineasta foi investigado na época das acusações nos anos 90 e nada ficou provado, sendo o mais provável que tudo não passasse de uma invenção de Dylan, na época com sete anos, potenciada pela pressão de Mia Farrow. De tempos a tempos, esta história volta à ribalta, com Dylan, agora com 32 anos, a acreditar verdadeiramente no que diz. Todavia, de repente, a cobardia tomou conta de Hollywood e mesmo quem já foi investigado e tido como inocente passa a ser julgado e condenado, sem provas, pelos seus pares e opinião pública - que, como sempre, tem dois pesos e duas medidas. E já nem falemos do caso Polanski e dos seus apoiantes (Mia Farrow, por exemplo...) e oponentes, num contexto completamente diferente de Woody Allen.

Woody Allen é mesmo o caso mais dramático, com actores com quem trabalhou a distanciarem-se do cineasta: Rebecca Hall, Timothée Chalamet, Colin Firth, Mira Sorvino (ganhou um Oscar à conta dele), Greta Gerwig, Natalie Portman (que tem tido outras saídas infelizes), Rachel BrosnahanDavid KrumholtzEllen Page. Todos trabalharam com ele depois das acusações e das investigações, todos se lembraram agora que era excelente ideia virar-lhe costas e insinuar a sua culpa, mais de 20 anos depois dos investigadores o terem ilibado. Para juntar a tudo isto, o próximo filme de Woody Allen, A Rainy Day in New York, pode estar em risco de ter estreia comercial. Está tudo louco!


Não quero deixar de ver os meus cineastas favoritos nos cinemas por acusações que já foram investigadas há mais de duas décadas e onde não existiu crime. Um grupo de feministas queria que retirassem uma estátua de Allen de Oviedo. Santa ignorância! Tragam-ma aqui para casa, já que não a querem. Tantos direitos pelos quais lutamos e agora este medo desmedido faz-nos negá-los aos nossos semelhantes? Chega a ser tudo ridículo. Ver Woody Allen, o realizador que tantos elogios à mulher tem feito nos seus filmes, que constrói personagens femininas fortes e inesquecíveis, ser mal tratado desta forma por Hollywood e não só, é revoltante!

Voltando ao assédio propriamente dito. É sabido que é o Poder que coloca o agressor em vantagem em relação à vítima, e certo é também que a maioria dos primeiros são homens e das segundas mulheres. É verdade também que esta "revolução" tem feito muito pelas mulheres que perderam o medo e finalmente se sentem seguras para denunciar os seus agressores. Mas o aproveitamento mediático que se está a fazer da situação não pode continuar. Seja pelas demonstrações de apoio que nada acrescentam (todos vestidos de preto, para quê?), seja pela multiplicidade de acusações que se sucederam em tom de aproveitamento, sem provas ou com casos muito mal explicados, e a consequente ruína da carreira dos acusados. Olhemos para James Franco e para o momento em que surgiram as acusações contra si: logo depois de vencer o Globo de Ouro de Melhor Actor de Comédia. Tudo o que se seguiu foi o afastamento do actor na corrida aos prémios com a sua melhor interpretação de sempre. De repente, já ninguém lhe reconhece talento nem ao seu filme Um Desastre de Artista. É justo? Para mim, não é.


Feminismo não é acusar qualquer homem que respire ou qualquer mulher que goste de se vestir como quer. Mais recentemente, Jennifer Lawrence foi criticada pelo vestido que usou em fotos com os actores de Agente Vermelha (Red Sparrow) por ser bastante revelador e estar muito frio. A batalha que tem levado a cabo no que respeita a igualdade salarial em Hollywood não parece ter servido de muito aos puritanos (ou invejosos?) que preferem criticar as escolhas e gosto de uma mulher adulta e independente. Já não se pode ser mulher.

Também já ninguém pode abrir a boca se tiver uma opinião ligeiramente diferente da maioria, a liberdade de expressão é só para alguns, no que toca a estes temas. Matt Damon e Quentin Tarantino são os casos mais flagrantes de quem não mediu as palavras e foi mal interpretado e, ainda que os ânimos estejam menos agitados, Tarantino já parecia começar a ter problemas com o próximo filme. Eu quero continuar a ver o mestre Tarantino no cinema!

Na Europa, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot vieram manifestar o seu ponto de vista (bastante menos radical e mais da velha guarda) e foram imediatamente abalroadas por movimentos feministas. Michael Haneke ainda deve ser dos poucos cuja opinião não é tão contestada. Falou, e bem, sobre o que se passa actualmente e só lhe posso dar razão. Critica o "total rancor sem qualquer reflexão e uma raiva cega, não baseada em factos, mas que destrói as vidas de pessoas cujos crimes não foram provados". É isto que tenho vindo a defender em conversas acesas com amigos ou conhecidos, desde Outubro passado.

Estou farta de lutos hipócritas, de manifestações pouco solidárias, de julgamentos em praça pública, de quererem eliminar da História do Cinema e da Televisão nomes que tanto têm feito pelas suas artes. Sou feminista, concordo que o assédio tem de ser punido e que a igualdade entre sexos deveria ser um direito adquirido.

Não podemos deixar que banalizem um assunto tão sério. E é isso que está a acontecer. Há que lutar por justiça, para as vítimas e para os que estão a ser acusados injustamente. Há que clamar por bom senso e não deixar que a História do Cinema (ou Televisão, ou Teatro) seja destruída em actos de raiva e cobardia.

4 comentários:

papeldeparede disse...

Com um role tão vasto de mulheres que deixaram as suas vidas anónimas e ganharam o acesso ao estrelato isto ainda poderá influenciar algumas outras ambiciosas rapariguinhas... Só espero que a ambição nunca lhes tolda o bom-senso e nem lhes retire força a acusações cabidas e atempadas. Haja paciência!

papeldeparede disse...

Com um role tão vasto de mulheres que deixaram as suas vidas anónimas e ganharam o acesso ao estrelato isto ainda poderá influenciar algumas outras ambiciosas rapariguinhas... Só espero que a ambição nunca lhes tolda o bom-senso e nem lhes retire força a acusações cabidas e atempadas. Haja paciência!

Francisco Quintas disse...

Não podia estar mais de acordo. Simplesmente tiraste-me as palavras da boca, tanto no que diz respeito à banalização do assédio e no que diz respeito às carreiras de tantos bons artistas. ADORO o Woody Allen e o Kevin Spacey. Por muitas acusações que estes levem, não vou deixar de ver os filmes dele. Não vai deixar de ser bons realizadores/atores por causa disso. No dia em que alguma coisa seja provada, faço um esforço para os desprezar, nem que seja o trabalho recente deles. Mas quer dizer, nomear o Daniel Kaluuya em vez do James Franco. A América é um país nojento. "PESSOAL TEMOS DE NOMEAR UM PRETO, SENÃO ACUSAM-NOS DE SER RACISTAS! QUEM É QUE TIRAMOS? EPÁ, O JAMES FRANCO, FOI ACUSADO DE ASSÉDIO E TUDO, NÓS DÁ JEITO". Isto é revoltante, e o mesmo foi o comentário da Natalie Portman quando a Greta Gerwig nõ foi nomeada nos Globos. Eu não vi o Lady Bird ainda, mas será a exclusão dela assim tão desumano. Há tantos artistas injustiçados ao longo da História, mas só se mexem por causa de uma mulher que é posta como vítima. Claro, quando uma mulher fizer um trabalho superior a um homem, deve-se nomeá-la. A uma mulher e a um preto ou a um asiático, como se deve sempre fazer. Agora, não vamos cair para extremos. Não se pode nomear por nomear.

Inês Moreira Santos disse...

papeldeparede: sim, não podemos esquecer os casos reais e é a favor desses que devemos continuar a lutar.

Francisco Quintas: Neste caso não me parece que se trate de questões raciais. A nomeação do Kaluuya parece-me bastante previsível tendo em conta o hype do filme. Aqui a solução do politicamente e hipocritamente correcto foi tirar o Franco e pôr o Denzel Washington - que é um excelente actor, sem dúvida -, que começa a ser a versão masculina da Meryl Streep.
O comentário da Natalie Portman também me pareceu de péssimo gosto.

Cumprimentos cinéfilos e obrigada pelos comentários.